Edição nº 006Sábado, 31 de outubro de 2026 Instagram Newsletter
Mulher de óculos e avental preto, com a mão na testa, confere um caderno de contas e papéis ao lado de uma calculadora, em uma mesa de madeira.
Dinheiro

Vendo bem mas não sobra dinheiro: onde ele foi parar

Vendo bem mas não sobra dinheiro? Veja os vazamentos mais comuns, a conta do pão e do café e um exercício de uma semana no caderno pra achar o seu.

Por Redação Alicerce· · 6 min de leitura
Edição00530 out 2026

Vendo bem mas não sobra dinheiro: isso costuma acontecer quando a loja vende produto sem lucro, joga mercadoria fora, tira dinheiro do caixa sem anotar ou paga taxas que ninguém colocou na conta. Dá pra descobrir qual desses buracos é o seu em uma semana, com um caderno.

A padaria está cheia às 7h da manhã. Fila no balcão, maquininha passando sem parar. Aí chega o dia 30, o boleto da farinha vence, e o dono olha a conta sem entender. Você não está sozinho nessa. Segundo a Serasa Experian, em agosto de 2026 o Brasil tinha 9,3 milhões de empresas inadimplentes, com contas em atraso. É o recorde da série mensal. As micro e pequenas somavam 8,8 milhões desses CNPJs, cerca de 95% do total, com dívida em torno de R$ 211 bilhões.

Esses números não contam o motivo de cada atraso. Tem negócio que sofre com juros, com mês fraco, com cliente que não paga. Mas uma coisa dá pra olhar hoje mesmo: os vazamentos dentro da sua loja.

Produto vendido sem lucro: a conta do pão e do café

Esse é o vazamento mais difícil de enxergar, porque ele vem junto com muita venda. Vamos a um exemplo inventado, com número redondo. Imagina uma padaria que vende um combo de pão na chapa com café por R$ 8.

  • Pão, manteiga, café, leite e copo: R$ 3,50.
  • Pedaço do salário, do aluguel, da luz e do gás que esse combo precisa ajudar a pagar: R$ 4,50.
  • Total: R$ 8.

Sobra zero. Se o dono vender 100 combos num dia, o balcão ferve e o lucro continua zero. Se ele baixar pra R$ 7 pra “atrair mais gente”, passa a perder R$ 1 em cada um. Quanto mais vende, mais perde.

Muita gente faz o preço olhando o vizinho ou só somando os ingredientes. O custo da luz, do aluguel e do seu trabalho fica de fora. Comece fazendo a conta dos cinco produtos que você mais vende. O jeito é igual ao de calcular o preço de marmita sem ficar no prejuízo.

Desperdício que ninguém anota

Na padaria, é o pão que sobra no fim do dia. Na loja de roupa, a peça encalhada. Na oficina, a peça comprada errada. Como sai aos pouquinhos, parece coisa pequena.

Olha a conta de exemplo. Se sobram 30 pães por dia, com custo de R$ 1 cada, são R$ 30 no lixo. Em 30 dias, R$ 900. É um boleto inteiro.

Se isso acontece aí, faça um teste: reduza um pouco a fornada da tarde, ou transforme o que sobrou em torrada e farinha de rosca. Mesmo cuidado vale pra frios, verduras e qualquer item com validade curta.

Leia também: Como separar dinheiro pessoal da empresa sem planilha

Retirada sem controle: o caixa virou sua carteira

Faltou pro mercado de casa, você pega do caixa. A gasolina, o lanche do filho, a conta de luz da sua casa. Ninguém anota, porque “o dinheiro é meu mesmo”.

Aí a conta engana. R$ 50 por dia, uma quantia que parece pouca, viram R$ 1.500 em 30 dias. E esse dinheiro pode ser justamente o que faltou pro fornecedor.

Você tem direito de tirar dinheiro do negócio. O problema é tirar sem saber quanto. Defina um valor por semana pra sua casa, tire uma vez só e anote. Se o negócio não aguenta esse valor, você precisa saber disso logo, enquanto ainda dá tempo de ajustar.

Taxas que comem a venda sem você perceber

Maquininha, aplicativo de entrega, parcelamento, tarifa do banco. Você vende R$ 100 e entra menos do que isso. Olha só, em um exemplo: uma loja que passa R$ 30 mil por mês no cartão, com taxa média de 3%, deixa R$ 900 no caminho.

Taxa é parte do negócio, mas precisa estar no preço. Confira o extrato da maquininha, veja quanto paga em cada modalidade e pergunte se consegue uma taxa menor. Tem o passo a passo em como colocar a taxa da maquininha no preço sem perder.

Agora some os exemplos deste texto: R$ 900 de pão perdido, R$ 1.500 de retirada sem anotar e R$ 900 de taxa fora da conta. São R$ 3.300 por mês. Na sua loja, o número vai ser outro, mas a soma costuma assustar.

Vendo bem mas não sobra dinheiro: o exercício de uma semana no caderno

Sem planilha e sem programa. Pegue um caderno e deixe no caixa por sete dias. Reserve uma página pra cada dia e anote:

  • Tudo que entrou. Dinheiro, Pix e cartão, separados.
  • Tudo que saiu. Da conta grande à moeda do estacionamento.
  • Tudo que você tirou pra casa. Com o valor certo, mesmo que seja R$ 5.
  • Tudo que foi pro lixo. Quantos pães, quantos salgados, qual mercadoria.
  • Os cinco itens mais vendidos. Depois, faça a conta de custo de cada um.

Se tiver funcionário no caixa, explique que o caderno serve pra entender o negócio, sem caça a culpado. Vale pra qualquer ramo. O salão anota produto usado, a oficina anota peça comprada, o delivery anota embalagem e taxa de aplicativo.

No sétimo dia, sente com o caderno e um café, passe uma caneta colorida no que surpreendeu e responda três perguntas:

  • Qual foi a maior saída que eu não esperava?
  • Qual produto vendo muito e dá pouco ou nenhum lucro?
  • Quanto tirei pra minha casa, somando tudo?

Vendo bem mas não sobra dinheiro: o que fazer depois

Mexa em uma coisa de cada vez. Resolver tudo na mesma semana cansa, e aí nada muda. Escolha o vazamento maior, tome uma decisão e acompanhe por 30 dias.

Pode ser aumentar R$ 1 no combo que não dá lucro, reduzir a fornada da tarde ou definir a retirada semanal. Se a conta do fornecedor já está atrasada, ligue pra ele antes do vencimento seguinte e tente combinar um novo prazo. Quem aparece com uma proposta costuma ter mais chance do que quem desaparece.

Compre um caderno hoje, deixe do lado do caixa e escreva a primeira venda de amanhã na primeira linha.

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